segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

TETO AZUL

TETO AZUL

Jorge Ramires Fortunato, seu Jorge, como era conhecido, um homem dos seus cinqüenta anos, alto, magro, cabelos grisalhos e metido a intelectual.

Como em um despertar de um sonho,estava dentro de um ônibus procurando pelo número de sua cadeira descrita na passagem que havia comprado para realizar seu sonho, viajar até sua cidade natal, rever seus amigos, e poder fazer as coisas que tanto sentia saudades.Isso se concretizava pela insistência do pessoal com quem ele trabalhava em uma repartição pública.

Ao transitar pelo corredor do ônibus, podia perceber que o ônibus não era um dos piores, as cadeiras ainda traziam consigo um cheirinho de novo e ainda podia usufruir uma TV com DVD.

.Até chegar a sua cadeira, Jorge ia olhando para cada passageiro que já estava acomodado, buscando adivinhar o trajeto de cada um.

Até que enfim Jorge acha a sua cadeira.Ao seu lado está um rapaz alto, moreno, usando um boné preto. Jorge acomoda-se e tenta não ser incômodo, baixa a cadeira a ponto de poder relaxar e começa a olhar pela janela o céu anil e cheio de nuvens. Nesse meio tempo seu olhar traspassa as nuvens e começa a relembrar os momentos em que, quando criança brincava em sua terra natal. Suas travessuras passavam em sua mente como em um filme, a ânsia de chegar misturava-se com a nostalgia... Que de repente é interrompida por uma parada brusca do ônibus, para receber mais um passageiro.

Jorge continua olhando vagamente pela janela do ônibus e relembrando seu passado, quando é interrompido por um palmadinha no ombro.

.Desta vez era homem explicando, que aquela cadeira que Jorge estava na realidade, era a sua de origem.

Jorge um pouco atônito não hesitou e levantou-se em busca da sua real cadeira. No trajeto ficou se perguntando com isso havia acontecido e ao mesmo tempo se auto respondendo ,com justificativas como: a idade vai chegando, a ansiedade da viagem...Mas depois diagnosticou que há muito tem vinha sofrendo com sua falta de memória e ao encontrar sua cadeira deu o assunto por encerrado.

Olhou disfarçadamente para o seu novo companheiro de lugar, um homem de aparência exótica, olhos esbugalhados, nariz extremamente grande e vestimentas estilo anos 70.

O novo companheiro de viagem parece que já o estava esperando, foi logo se afastando e descarregando sucessivas perguntas sobre a vida de Jorge e antes que fosse respondida a primeira ,outra já lhe era proferida, sempre com a afirmação do companheiro­- Parece com minha vida.

Com o passar do tempo Estenilau e Jorge já estavam bem íntimos, quando Jorge lembrou-se do episódio em que trocara de cadeira dentro do ônibus.

.Começou a falar do seu recente hábito de esquecer as coisas, e Estenilau sempre afirmava:

- Eu também sou desse jeito.

Estenilau começou a perguntar como era a casa de Jorge.

_ A minha casa é pequena, porém aconchegante, possui dois quartos onde um tem o teto pintado de azul, onde passo horas deitado em minha cama, olhando para ele. Sem contar que minha cama é similar a minha de infância e ao seu lado está uma cômoda onde sempre está uma agenda, surrada pelas buscas incessantes de números e endereços que minha memória não aprende.

Quando Jorge ia descrever a sua cozinha dá um pulo da poltrona e exclama em voz alta.

­­­­­­-Meu Deus, meu fogão! .

Estenilau mesmo sem entender o momento faz sucessivas perguntas que devido a sua voz fanha tornou o momento ilário.. Meu fogão!Acho que deixei o fogão ligado e agora o que vou fazer?- Disse Jorge.

Não tem problema sua mulher apaga -respondeu Estenilau.

Este é o problema eu não tenho mulher, sou solteiro e antes que você pergunte, não tenho empregada e moro só, eu e Deus.

- Mas agora o que eu farei, a casa pode ser incendiada?!

Liga para a vizinha -Sugeriu o,companheiro de viagem

-Não posso, esqueci o número da vizinha e meu celular que tem o número dos meus amigos também deixei em casa - Comentou desesperado seu Jorge.

-Eu também sou desse jeito, esquecido-Falou Estenilau.

O tempo ia passando e a angustia aumentando, cada solução pensada por Jorge, trazia consigo, outra de pessimismo.

Foi aí que seu amigo fez um questionamento:

-Será que você realmente esqueceu o fogão aceso?

Jorge ficou atônito, um fio de esperança tomava conta daquela ansiedade, havia essa probabilidade e esta servia agora de calmante, a situação que estava quase incontrolável, toma outro rumo. Mais calmo Jorge começa a fazer a retrospectiva dos seus passos antes da viagem, o esforço apesar de grande era em vão, sua memória não conseguia lembrar-se de nada. De repente tudo volta ao “normal”, a preocupação recomeça... A única saída era parar o ônibus e voltar o mais rápido possível para casa, a viagem seria interrompida, as lembranças de infância, a saudade, os reencontros , tudo isso por água abaixo, devido ao seu esquecimento, misturavam-se os sentimentos de raiva e remorso.

Nesse instante com mais de 200 km percorridos ,Jorge resolve levantar-se do seu lugar, todos o olhavam admirados, pois já sabiam do acontecido. A senhora de óculos ao lado escutara a conversa e assim foi-se espalhando o acontecido.

Os passageiros foram se se solidarizando com Jorge e várias idéias e celulares foram oferecidos.

Quando de repente um homem grita: - Pare este ônibus.

A voz vinha do final do corredor um homem moreno, alto forte, identificando como bombeiro, saltou de sua poltrona e foi falar com o motorista, alegou que aquele poderia ter sua casa incendiada e o incêndio poderia se alastrar e provocar uma tragédia.

Começa a passar um filme pela cabeça de Jorge , na sua mente o seu nome já percorria os canais de televisão e todos os jornais importantes davam noticias da tragédia em primeira mão.

O motorista amedrontado pára o ônibus, seu Jorge dar um suspiro, vira-se para Estenalau que balança a cabeça e diz: - Vai dar certo.

Jorge pega suas coisas, olha ao seu redor, as pessoas olham para Jorge como quem diz:estamos torcendo por você.Aperta na mão do seu amigo e sai como um Super-Herói que precisa cumprir sua missão.

Agradece ao motorista e faz a pergunta ao mesmo:- Falta quantos quilômetros para chegar a Potiassu?

O motorista olha espantado para João e diz: nós não estamos indo para Potiassu e sim para Poti.

Jorge fica mais espantado do que o motorista, começa a auto flagelar-se, pois achava que havia esquecido o próprio nome de sua terra natal,porém o que ele não lembrava era que muitos outros municípios haviam surgido e Poti era um deles; e que antigamente sua terra natal era chamada carinhosamente de Poti.

Parado em posto de gasolina, Jorge começa a analisar sua falta de sorte ou de memória, de sorte não seria, pois pouco tempo depois, pára um táxi que estava indo para a cidade onde ele morava e Jorge aproveitou .Esquecera até do fogão aceso e os riscos que sua casa e os vizinhos estavam sujeitos.

A viagem foi a mais rápida que já fez, não deu tempo nem de conversar com o motorista. Ao chegar em casa foi logo aguçando o olfato para ver se sentia cheiro de queimado.Abriu a porta o mais rápido possível, deixou até sua bagagem na entrada e correu para a cozinha,ao passar pela sala seu coração começou a bater mais forte sentira um pequeno cheiro de queimado,já não corria mais,andou um pouco farejando a origem do cheiro para saber se realmente era verdade ou era coisa do seu psicológico.Ao entrar na cozinha, sentiu um enorme alívio, o fogão estava apagado, apenas um resto de comida encima dele.Mas ainda sentira o cheiro de fumaça e onde há fumaça há fogo!Foi aí que olhou para o canto da cozinha e lá estava o motivo de toda aquela confusão. Jorge havia acendido uma vela de 7 dias para o seu santo padroeiro Santo Expedido, o santo das causas perdidas,pois como sua memória era muito fraca sempre apelava para o Santo,ainda que nunca conseguisse lembrar -se de nada.

Depois daquele dia muito confuso, Jorge deitou-se em sua cama, olhou para o teto e começou a pensar novamente em sua infância na sua cidade natal, nos seus amigos e acabou adormecendo...

No outro dia ao chegar no trabalho todos se admiraram, pois Jorge não tinha viajado e ainda esquecera que estava de férias, voltando assim para o trabalho.

Everton Freitas

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